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- Mentoria para Escritores -
Anderson Julio Lobone
Escritor - Ghost Writer - Biógrafo - Produtor de Livros
Textos
A casa da esquina
Quando o sol se debruçava sobre o parapeito das tardes de domingo, eu costumava sair e observar o movimento da rua onde eu morava. Fincada na esquina, havia uma casa grande. Do portão do meu velho sobrado era possível ver apenas o seu telhado. Quase nunca havia movimento ali. Vez por outra era que se ouvia uma canção da Edith Piaf vinda lá de dentro. A vizinhança comentava que os moradores eram apenas um general aposentado e a sua governanta, companheira desde que sua esposa apareceu morta no jardim. Dizem as más línguas que a professora teria sido envenenada. E que o militar teria deixado um testamento, onde tudo o que tinha ficaria para sua governanta.
Naquelas tardes, um carro branco estacionava em frente à casa misteriosa e uma bela jovem - com seus vinte e poucos anos - trazia sacolas de supermercado cheias. Ela não ficava mais do que três horas no local. Ao sair, sempre levava outras tantas sacolas. Imaginava-se se tratar de alguma neta do velho militar. Talvez trouxesse compras. Ou levasse e trouxesse roupas. Ou tudo isso. Ou nada disso. Enfim, só mistério na casa da esquina.
A cada visita da jovem, um novo alvoroço nos portões da rua. Acho que todos esperavam por algum acontecimento que diferenciasse aquela rotina dominical. Povo fofoqueiro aquele. Confesso no entanto, que minha curiosidade também era aguçada a cada vez que ouvia “Non, je ne regrette rien”. Quem seria afinal o homem que amava uma de minhas cantoras favoritas? Sentiria ele muita falta de sua finada esposa? Teria ele um romance com sua governanta? Seria eu també, um fofoqueiro de plantão?
As interrogações de toda a rua permaneciam sem resposta em mais um daqueles domingos avermelhados pelo outono, quando de repente, escutei um antigo samba de Roberto Ribeiro que dizia: “Está faltando alguma coisa em mim. E é você amor, tenho certeza sim.” Percebi que a música vinha da rua. Curioso, busquei sua fonte.  Ao chegar ao portão notei que o reduto da diva francesa havia se rendido ao sambista carioca. Achei estranho, pois mesmo com outra trilha sonora, não havia movimento na casa. Nem mesmo a jovem do carro branco apareceu.
De repente, pouco antes do sol se jogar por de trás da serra, o portão da casa se abriu. O velho general se arrastava pelo chão com muita dificuldade. Todos correram para socorrê-lo. Ele balbuciava algo que denunciava sua dificuldade em respirar. Em segundos, desfaleceu. Um médico que morava nas proximidades foi chamado. Constatou que ele o militar já não habitava este plano. Corpo sem reação. A polícia chegou e ninguém sabia dizer nada. A governanta não estava. A estranha tragédia agitava o fim do domingo. Ninguém encontrava explicação.
Outras semanas passaram. Outros domingos amanheceram. Agora, na casa da esquina vivem a governanta, a jovem do carro branco e uma estranha história que nenhum dos fofoqueiros da minha rua suspeitaria. Na sala, o aroma do incenso de alfazema se mistura com o cheiro da carne assada vindo da cozinha. A trilha sonora é absolutamente romântica.
Sob a grama do jardim, restos de veneno. Na suíte principal, os indícios são de romance e culpa.
Anderson Julio Lobone
Enviado por Anderson Julio Lobone em 13/08/2020
Alterado em 16/08/2020
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