× Capa Meu Diário Textos Áudios Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
- Mentoria para Escritores -
Anderson Julio Lobone
Escritor - Ghost Writer - Story Coach - Biógrafo - Produtor
Textos
(Crônica publicada no Correio de Araxá – 2005)
          Não haveria razão para escrever se não houvesse a memória. Os resquícios das lembranças são como um combustível indispensável para aqueles que como eu, fazem do ofício de escrever uma ponte para a felicidade.
          Por conta disto, estes dias debrucei-me sobre a janela de minha alma e perguntei-me: que memórias ocupam um lugar terno e especial neste velho coração de poeta?
          Imediatamente lembrei-me de personagens distantes, perdidos na névoa do tempo e que tornaram brisas, todos os ventos que atravessei.

1) Trevor, o gringo doidão.

          Nos anos oitenta, durante a apresentação do cantor britânico Sting no estádio do Maracanã, conheci um cara chamado Trevor. O rapaz em questão era um compatriota do então ex-líder do The Police, uma banda de rock considerada seminal para todo o som que nasceria na década seguinte.
          Por mais que meu inglês não fosse um bom caminho a ser trilhado por quem desejasse se comunicar, acabei passando quase todo o concerto “conversando” com Trevor. Com um jeito de quem estava "mucho loco", ele escondia em seu casaco, uma pequena garrafa de gim e vários baseados.
          Entre um hit e outro de Sting, ele me dizia:
- Hey “Andersen”, isto é música! Isto é alma! – repetia batendo no peito.
- Se você pode sentir isso você é um ser especial – dizia.
          Achei engraçado como um inglês - à quem normalmente imputamos a imagem da frieza, se deliciava tão intensamente com cada acorde do show.
          Num determinado momento da apresentação, Trevor me olhou e disparou:
- Hey “Andersen”, o que você é de verdade “bem lá no fundo” de sua alma?
- I’m just a poet Trevor. Just a poet... – respondi com um olhar entediado.
          Por uns instantes,Trevor me olhou quieto. Ao fim de uma belíssima canção de Sting, chamada “Seven Days”, ele me disse:
- Então você é um deles Andersen!
- “Deles” quem, seu doido? – retruquei.
- Você é um anjo. Poetas são anjos. E os anjos poetas escrevem coisas para nos anestesiar das dores da vida. – respondeu com um ar sério.
          Senti vergonha da minha pouca paciência. A maluquice carinhosa e a poesia das palavras de Trevor, me tocaram profundamente. Passei o resto do show calado e emocionado.
          Enquanto Sting se despedia do público, Trevor se despedia de mim com uma frase que, de alguma maneira faz com que ele esteja aqui até hoje:
- Hey Andersen, a poesia é o carinho dos anjos. Leve seu carinho ao mundo.

2) Maria da Bahia, a preta velha desatenta.

          Certa vez em Salvador, eu procurava uma sandália de couro para presentear uma amiga. Em meio a acarajés e patuás, andava tranquilamente pelo Mercado Modelo quando fui abordado por uma senhora de cabelos brancos e muito risonha.
          Ela segurou na minha mão e mirou dentro dos meus olhos:
- Você não é o poeta? - perguntou.
- Sim, mas eu tenho quase certeza de que não sou o poeta que a senhora está procurando, pois sou um poeta absolutamente desconhecido – respondi.
- Seu bobo. Saiba que eu li muitas coisas ao seu respeito – insistiu.
- É? E onde a senhora leu? – perguntei entre o riso e o deboche.
     Senti que ela começou a não gostar de minhas respostas, pois imediatamente soltou minha mão.
- Olha aqui Francisco, eu sei que poeta é um povo meio estranho, mas não é porque eu acho seus poemas porretas que você vai pensar que vai me enganar ta? – vociferou.
- Olha, senhora, me perdoe. Eu não me chamo Francisco. Meu nome é Anderson e eu não sou o poeta famoso que a senhora esta pensando – respondi já meio penalizado.
- Humm... – resmungou desconfiada.
- Você sabe quem é seu pai? - perguntou, mudando de assunto.
          Achei estranha a pergunta, mas como não queria mais contraria-la resolvi contar que meu pai havia falecido há muito tempo e se chamava Alípio.
- Meu rei, eu estou perguntando sobre seu Pai de Cabeça – explicou.
- Olha, eu não entendo muito dessas coisas de umbanda ou candomblé, mas um dia me disseram que era Ogum – respondi com receio de falar bobagem.
- Ahhh... Ogum! Sua mãe deve ser Iemanjá e por conta disso a sua poesia vai cortar como o aço e envolver como as águas - emendou.
          Eu realmente estava achando aquela conversa sem sentido, por isso, agradeci a sua explicação sobre aquelas coisas e lhe disse que eu precisava ir, pois ainda tinha que comprar o presente da minha amiga.
- Olha só meu filho, põe uma coisa na sua cabeça. Você vai fazer mil coisas e se perder por várias vezes. Mas a única coisa que vai fazer você feliz de verdade é ser um poeta na vida. Ouviu bem, seu teimoso? – disparou.
- E você vai se lembrar dessa velha Maria aqui, viu? Te dizendo isso sob as bênçãos de Nosso Senhor do Bonfim – gritou.
E não é que eu não esqueci, mesmo?
Saravá, Velha Maria!

3) O menino de Floripa.

          Era inverno na praia da Joaquina, em Florianópolis.
          Estava ali em um passeio inesperado, mas tentando relaxar em meio às tempestades que pipocavam em minha vida no início de 2003.
          Cheio de casacos e com uma caipirinha na mão direita, eu olhava meu filho, então com pouco mais de dois anos a correr pelas areias ao lado da mãe.
          Envolvido pelos sons das ondas quebrando, quase não escutei a voz do menino que apareceu do nada.
- O senhor está triste? – perguntou-me com um sorriso no meio da face alva.
- O que você faz sozinho aqui, menino? Onde estão seus pais? – perguntei mal educadamente, sem responder a sua pergunta inicial.
- Estão ali – respondeu, apontando para uma mesa ocupada por pessoas que falavam alto e gesticulavam muito.
- Mas me responde, o senhor está triste? – insistiu.
- Não, eu estou muito feliz – menti.
- Não é o que parece, tio? – disse aquele menino sem piedade.
          Imediatamente lancei o olhar para o meu filho - que rolava na areia com a mãe, em gargalhadas gostosas como uma manhã de setembro.
- Tio, o que o senhor faz da vida? – perguntou o pestinha.
- Tenho uma empresa de computadores – respondi entediado.
- Meu pai é médico e minha mãe é professora – contou-me.
          Olhei para aquele menino e fiquei a me perguntar porque diabos ele estava ali a interromper as minhas lamúrias naquela manhã.
- E você, o que vai ser quando crescer? – perguntei.
- Ah tio, eu vou ser um escritor - respondeu com o mais lindo sorriso que eu já havia visto até então.
          Aquela resposta caiu como uma bomba de “zilhões de megatons” na minha cabeça. A vontade de me atirar no mar foi tão grande, que eu achei melhor pedir outra caipirinha.
- E porque você quer ser escritor, em vez de ser um empresário ou um médico, como o seu pai? – questionei, devolvendo a explosão covardemente.
- Porque eu preciso ser feliz quando eu crescer, entendeu tio? – devolveu ele sem piedade.
- Sabia que eu antigamente escrevia muitos poemas? – disse já me rendendo.
- E não escreve mais? – perguntou cruel.
- Não – respondi amargo.
- Ah tá, agora entendi! – disse com um ar de severidade.
- Entendeu o que? – perguntei.
- Porque o senhor está triste – disparou, como que num tiro de misericórdia.
          Antes que eu perguntasse seu nome, sumiu por entre as mesas.

Moral das histórias:
- Trevor sumiu pelo mundo, e não sei dizer se está entre os anjos.
- Velha Maria deve estar num mundo melhor que o nosso, fazendo mandinga.
- O menino da Joaquina deve ter crescido e provavelmente, vive feliz por ai.
Todos de alguma forma, ficaram em mim.
Anderson Julio Lobone
Enviado por Anderson Julio Lobone em 15/08/2020
Alterado em 16/08/2020
Comentários