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- Mentoria para Escritores -
Anderson Julio Lobone
Escritor, Ghost Writer, Redator Publicitário e Produtor de Livros
Textos
    Samuel repousou o estojo do contrabaixo no piso da emergência e olhou incrédulo para o médico que, empático, o abraçou. A notícia de que o estado de Lucas era irreversível soou como uma explosão. Sentou-se na cadeira ao fundo do corredor e, por alguns minutos, olhou para o vazio. Atônito, não conseguia organizar os pensamentos. Afinal, há pouco menos de uma hora, participava animado do ensaio de seu grupo de jazz, quando recebeu o telefonema informando que seu companheiro de quase dez anos se encontrava em estado gravíssimo.
     Sem maiores explicações sobre o ocorrido, sabia apenas que Lucas fora baleado dentro da academia. Tudo parecia sem sentido. Pelo menos, até a chegada de um rapaz enorme e musculoso, tal qual um daqueles heróis de cinema. Estranhamente, o brutamonte gritava de desespero, chamando por Lucas. Samuel, ainda atônito, levantou-se com o intuito de se apresentar, quando a chefe das enfermeiras surgiu acompanhada de duas pessoas e perguntou ao rapaz se ele tinha parentesco com Lucas. A resposta de que eles se relacionavam há cerca de três meses foi seguida de um longo silêncio. A enfermeira empalideceu e olhou de rabo de olho para Samuel que, diante da cena improvável, voltou ao seu assento no fundo do corredor.       
     Confuso, manteve-se quieto. Afinal, ali à sua frente, a cerca de dez metros, o amante de seu marido era consolado pela assistente social e observado pelo segurança. Não bastasse a situação constrangedora, o físico avantajado do rapaz logo tratou de dissipar qualquer impulso de Samuel. Perdido entre a dor pelo ocorrido com Lucas, a decepção pela descoberta da traição e a sensação de impotência, Samuel nem percebeu a confusão na chegada da ambulância, que trazia uma mulher com pulsos cortados.
     Ao despertar de seus pensamentos, Samuel notou que o cirurgião conversava com a assistente social. Ambos olhavam disfarçadamente para ele e para o amante. Foi nesse instante que chegaram o diretor do hospital e dois policiais, que logo se dirigiram ao seu oponente. Perguntaram-lhe se conhecia Amanda, a moça que acabara de dar entrada no hospital, após tentativa de suicídio. Perplexo, o rapaz respondeu que sim. Era sua ex-esposa, de quem havia se separado há algumas semanas. Os policiais contaram que pouco antes de tentar se matar, Amanda atirara em Lucas à queima roupa, dentro da academia. O rapaz voltou a se desesperar e foi amparado por policiais e enfermeiros. Samuel assistia a tudo em silêncio e incrédulo. Continuava sentado ao lado do contrabaixo, sem esboçar nenhuma reação. Sua cabeça vagava entre a dor e a revolta. Sentiu vontade de ser abduzido e levado para bem longe. Onde não houvesse dor, raiva ou aquela sensação de ter sido enganado por quem mais confiava. Desejou ser salvo daquilo tudo. Depois de um longo silêncio, eis que o imponderável surgiu.
     Samuel, então, deixou escapar um estranho sorriso. Parecia estar em outro lugar. Nem percebia que, ao seu lado, a confusão estava instalada com a chegada da família de Amanda, que culpava o brutamonte por toda aquela tragédia. Policiais e enfermeiros tentavam manter a situação sob controle.
     Foi nesse momento, que o diretor clínico apareceu com ar severo e resolveu, a contragosto, colocar as coisas em seu devido lugar. Em voz alta, disse que sua equipe estava fazendo o possível para salvar vidas e que toda aquela confusão era um desrespeito ao local, aos profissionais e aos pacientes. Disse que, mesmo diante de uma situação tão delicada, era preciso manter alguma serenidade, como estava fazendo o marido de Lucas.
     Num primeiro momento, as pessoas não entenderam. Todos se entreolharam à procura do “tal marido do Lucas”. Ao lançar seu olhar para o fundo do corredor, o diretor se deparou com a cena inesperada e desconcertante. Com os olhos fechados, Samuel dançava e tocava vigorosamente seu contrabaixo, como que numa apresentação musical. Em sua cabeça, uma linha melódica, vinda sabe-se lá de onde, o impulsionava para longe de tudo aquilo. Com movimentos e trejeitos próprios do mais virtuoso dos “baixistas”, ele seguia tocando seu instrumento. Eufórico, frenético, feliz e sozinho. E distante. Muito distante. Sem nenhum acompanhamento, partituras, luzes, amplificadores ou outro equipamento.
     Felizmente não houve uma criatura sequer que ousasse interrompê-lo naquela performance.

(Texto publicado no livro "Café da Manhã no Fim dos Tempos" - 2021)
Anderson Julio Lobone e E outros autores
Enviado por Anderson Julio Lobone em 08/07/2021
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